Passo 3: Poupar 6 meses de despesas
O teu sistema imunitário financeiro
Ter seis meses de despesas poupadas é como ter um sistema imunitário fortalecido. Temos uma maior capacidade de enfrentar uma ameaça externa. Podemos sempre adoecer - da mesma maneira que vamos ter despesas não planeadas - mas, se tratarmos bem do nosso sistema imunitário, conseguimos sempre recuperar.
No passo anterior, quando eliminamos a dívida ao consumo, conquistamos o primeiro nível de liberdade financeira. E quando temos poupanças suficientes para cobrir as despesas essenciais durante seis meses, estamos preparados para lutar contra o inesperado na nossa vida financeira, e proteger a liberdade conquistada.
O inesperado
O meu objectivo quando escrevo este Substack é ser o mais positivo possível - ser optimista é uma condição necessária quando trabalhamos para atingir objectivos difíceis. Mas, despesas imprevistas fazem parte deste percurso, e temos de ser realistas sobre este facto.
Para mim, estes desafios foram ou de natureza médica (uma cirurgia inesperada) ou de avarias nos carros - que, por mais manutenção, parecem ter sempre algum problema que sai caro.
Mas o pior e maior desafio inesperado é ficar sem emprego. Muitas vezes não é por nossa culpa - trabalhamos muito e contribuímos para o sucesso da empresa onde trabalhamos - a empresa é que tem resultados piores do que o esperado e tem de reduzir os custos com o pessoal.
É para os piores scenarios que nos temos de preparar:
De acordo com a plataforma de recrutamento Indeed, é expectável levar até 5 meses a encontrar um novo emprego. A minha sugestão é simples: ter mais um mês de margem, para um total de seis meses de despesas poupadas.
A perspectiva positiva
Para os que se encontram em empregos com ambientes tóxicos, ou que têm sonhos de mudar de trabalho para realizarem o seu próprio projecto ou caminho, neste passo conquistamos o tempo e a margem de que precisamos para o fazer: Podemos finalmente quebrar o ciclo interminável de lamentações e tomar ação!
Se como eu, tiveres filhos, este passo é sobre protegermos a nossa família, garantir que não lhes falta nada, mas sem abdicarmos dos nossos projectos, e sem ficarmos a vida inteira num trabalho que odiamos.
Eu não estou a planear mudar de trabalho no curto prazo. Felizmente, tenho uma profissão de que gosto e, mais importante, tenho um ambiente de trabalho positivo com pessoas positivas que me desafiam a fazer melhor todos os dias. Mas, sei que o dia vai chegar (ou o inesperado) em que vou querer dedicar-me a 100% a um projecto como este, com uma missão maior do que só ganhar dinheiro - tornar a literacia financeira acessível a todos.
Quando chegar o dia, vou estar preparado, e sugiro que também estejas.
O que conta para os 6 meses?
As seguintes despesas essenciais são as que temos de incluir:
Habitação (hipoteca ou renda)
Comida
Contas da casa (água, eletricidade, gás, impostos, internet e televisão)
Educação (Propinas, Material Escolar, Roupa/equipamento)
Transportes (Passes, Carros/Motas, Manutenção)
Seguros (Saúde e Vida)
Saúde (Medicação, Consultas, Exames)
Para cada uma destas categorias, é preciso somar as despesas dos últimos 12 meses e dividir por 2.
Para que não existam dúvidas, quando as poupanças são de um casal, são 6 meses das despesas do casal ou da família (quando há filhos ou outros dependentes). Não é suficiente ter uma poupança de 6 meses das despesas de apenas uma pessoa do casal.
Poupanças não são investimentos
Infelizmente, em Portugal não existem (que eu conheça) produtos correntes com as devidas proteções de capital garantido de “high-yield” como existem nos EUA e em outros países. Em Portugal os depósitos a prazo e os certificados de tesouro têm rendimentos mais baixos, mas isto não é uma desculpa para investirmos as nossas poupanças.
Poupar e investir não são a mesma coisa. Quando falo em poupar, falo no conceito mais tradicional: guardar dinheiro numa conta bancária a render juros, sem risco.
É claro que o dinheiro aplicado em investimentos produtivos, como os índices que acompanham as bolsas, é no médio-longo prazo mais lucrativo. Mas este não é o passo do lucro, mas sim o passo em que protegemos a liberdade financeira até aqui conquistada. Para mim, este é o passo em que passamos a dormir bem à noite.
E é garantidamente o passo mais conservador no plano inteiro - porque aceitamos ineficiência matemática em troca de construirmos paz na nossa vida. A paz de saber que numa emergência - como o desemprego - conseguimos assegurar as despesas familiares, pagar as contas e a casa.
Para quem insiste em investir as poupanças, a única coisa que vai acontecer - e aqui falo da minha experiência - é todos os dias consultarem a aplicação da corretora. Todos os dias vão querer confirmar que os investimentos não perderam valor. É uma preocupação constante de quem tem um sistema imunitário frágil, incapaz de lidar com as variações habituais do mercado.
Eu prefiro saber que mesmo nos dias em que a bolsa cai, 5, 10, ou até 20%, eu não tenho de me preocupar. O dinheiro que tenho investido não é o dinheiro que uso para pagar contas, até mesmo num momento de crise.
Uma pequena confissão - Eu nem cumpri com o 3º passo
Quando descrevo a pessoa que investiu as poupanças e depois passa o dia todo a olhar para a aplicação da corretora, estou a falar de mim próprio. Muito do que escrevo no Essencial Financeiro vem de cometer vários erros, e sentir na pele as consequências.
Durante o tempo do COVID eu decidi investir todo o dinheiro extra que sobrava no final do mês em vez de construir uma poupança. De 2020 a 2022, os mercados subiram de uma forma acelerada, e eu sentia-me o génio dos investimentos.
Depois, em outubro de 2022, os mercados estavam aproximadamente 25% abaixo do nível em que iniciaram o ano, e eu senti na pele, diariamente, a preocupação de não saber se ia recuperar o meu dinheiro, e de saber que, se ficasse sem emprego, arriscava não pagar as contas.
Estou imensamente grato pelos mercados terem recuperado e por termos mantido os nossos empregos durante este tempo todo. Mas a sorte não é um plano. E hoje já não invisto as minhas poupanças, não vá a sorte acabar.


