E o meu carro?
Uma das decisões financeiras com maior impacto no teu futuro
Spoiler alert: Eu não sou um viciado dos carros. Quando vejo o dinheiro que muitas pessoas gastam com os seus carro, dou para mim a imaginar os milhares, se não centenas de milhares, de euros em lucros de investimento perdidos.
Mas, a realidade é que para muitos de nós o carro leva-nos ao nosso local de trabalho. São um mal - porque são bens que perdem valor com o tempo - necessário. Por isso não os incluo na categoria de dívida a pagar antes do passo 3, e dedico-lhes um post inteiro, porque é importante minimizar o impacto negativo dos carros na nossa vida.
Cash Only
Se o mundo fosse perfeito, e todos tivéssemos milhares de euros poupados, compraríamos os nossos carros apenas com dinheiro que temos poupado. Evitando assim pagar juros por um bem que deprecia a partir do minuto que se liga pela primeira vez. Ao contrário das casas, que em geral apreciam com o tempo, e por isso é justificável os juros pagos, os carros só em muito raras exceções é que ganham valor com o tempo.
Com os preços dos carros sendo o que são, e a geral falta de poupança, não é realista esperar que os leitores deste post comprem carros com dinheiro poupado, e por isso proponho um guia que limita o impacto negativo desta decisão financeira.
Carros de luxo
Antes de avançarmos, um pequena nota sobre carros de luxo: napalm financeiro.
Mesmo os que se dizem apreciadores de automóveis, que acreditam que conseguem comprar os poucos carros que apreciam em valor com o tempo, não gastem dinheiro em carros de luxo, é mais provável tornarem-se altamente destrutivos à vossa vida financeira.
Mas, se insistirem em pegar fogo ao dinheiro, paguem em cash.
Financiar este tipo de carro é pedir para se perder dinheiro no primeiro dia após a compra. Estão a financiar as próximas férias do vendedor com os vossos juros.
O que é um carro de luxo?
Eu nem estou a falar dos ditos “super-cars” como os Ferraris, Maseratis, etc., mas sim das marcas BMW, Mercedes, e semelhantes, que normalmente têm financiamentos com prazos de pagamento de 7 ou mais anos e taxas de juro acima dos 7%.
Segunda mão
Sempre que possível, comprar um carro seguro em segunda mão é a maneira ideal de poupar dinheiro com carros. Não estou a falar de comprar carros com 300,000km que nem conseguem levar do stand a casa. Mas carros de 50,000-100,000km, de marcas fiáveis para as quais não faltam peças nem oficinas.
E claro, deem-se ao trabalho de ver vários, stands, pedir várias propostas e negociar sempre o preço.
Guia para o financiamento de uma compra de carro
Este guia aplica-se a quem ainda não chegou ao passo 5.
Num mundo ideal:
2ª mão
Em dinheiro
Seguro
Preço inferior a €25.000
Usar durante 15 ou mais anos
Realisticamente:
Evitar carros de luxo - (Preços inferiores a €40.000)
Financiado pelo máximo de 5 anos
20% entrada (ou pagamento final)
Mensalidade inferior a 10% do salário líquido mensal
Usar durante 10 ou mais anos
O objectivo deste guia é limitar o peso dos encargos do carro no orçamento mensal, e reduzir os juros pagos. É possível sim financiar durante mais de 5 anos, muitas vezes até 10, e por isso ficar a baixo dos 10% do salário líquido mensal, mas isso é apenas um truque dos financiadores para fecharem mais uma venda, e uma excelente maneira de pagar mais em juros do que o valor do carro.
Há quem defenda que o carro não deve ser mais de 8% do salário líquido mensal e que não se deve financiar por mais de 3 anos. Para os leitores que se sentem desafiados - força nisso! Mas, os que descrevem essas limitações escrevem para um mercado onde dívidas com estudos universitários são muito superiores à realidade Europeia.
A minha experiência
Durante os primeiros cinco anos da minha carreira não tive carro. Vivia em Londres, onde os transportes públicos funcionam bem e ligam todos os pontos da cidade de uma forma eficaz. Gostava de dizer aos leitores que escolhessem transportes públicos, e que poupem muito dinheiro. Mas também sei que em Portugal muitas vezes não temos transportes públicos até onde precisamos de chegar, e que o carro poupa várias horas por dia em deslocação.
Quando a minha vida profissional levou a que tivesse de guiar para fora da cidade de Londres, comprei o meu primeiro carro: um VW Up em segunda mão. Para além de prático, gastar pouca gasolina, sei que me poupou muito dinheiro o tempo todo que vivi em Londres.
Regressado a Portugal, e com já dez anos de carreira fiz o upgrade, ainda dentro da marca VW: Polo. Durante 7 anos este carro serviu-nos (a mim, e à minha familia que até à data só contava com dois filhos) com apenas pequenos problemas, mas que foram relativamente baratos de arranjar porque existem várias oficinas que os arranjam e não faltam peças.
Dito isto, cometi o terrível erro de financiar o Polo com um empréstimo a 10 anos. Durante 7 anos a pagar 5% de juros… Esse dinheiro nunca o vou reaver.
Mas, felizmente, durante esse tempo fizemos o esforço de poupar, para que quando vendêssemos o Polo, e passássemos a um carro de 7 lugares (para caber agora os 5 filhos e as tralhas que acompanham), ao final de 16 anos de carreira, pagássemos dinheiro por uma Caddy - continua o tema de carros para os quais não costumam faltar peças nem oficinas.
E antes de o comprarmos, ficamos meses a comparar propostas de stands, sempre à procura de um momento em que uma campanha mais significative nos permitisse ter um desconto grande o suficiente para compensar a perda de valor inicial do carro.
Partilho estes detalhes pessoais porque apesar de nenhum dos carros ser um carro de luxo, e nunca ter excedido os 10% do salário liquido mensal, eu cometi o erro - fiquei 7 anos a pagar juros, que nunca recuperei, nem mesmo quando vendi o Polo durante um dos mercados em que carros usados melhor aguentaram o seu valor.
E espero com esta partilha ilustrar que muitas vezes o que sugiro nem sempre consegui cumprir na perfeição - e essa não é a expectativa. A ideia é minimizar os erros, aprender com os mesmos, e tentar melhorar passo a passo.
“Mas, a minha empresa paga o meu carro”
Faz sentido ter um carro “melhor” hoje, mas sacrificar um futuro melhor para ti e a tua família?
Excelente. Para muitos em Portugal este é um benefício extra que têm nos seus trabalhos por conta de outrem. Mas é importante considerar o seguinte:
O plafond do carro aumenta todos os anos, mas o teu salário base não?
Usas o valor equivalente para pagar dívidas, poupar ou investir?
Ter um carro melhor de quatro em quatro anos é divertido, mas se tiver a custar aumentos de salário, então não compensa. O carro não paga as contas de eletricidade, as escolas, não cria poupanças nem investimentos. Quando escolhemos um melhor carro em vez de mais salário, é uma oportunidade desperdiçada.
Para os que tem este benefício, e aproveitam a oportunidade, deixo-vos um desafio: Pensem no valor que iriam pagar mensalmente, como dinheiro que têm disponível para pagar dívidas, poupar ou investir. Talvez não 100% desse valor, porque em regra, teria de se deduzir impostos e segurança social, mas pelo menos 50% desse valor façam o esforço de utilizarem o dinheiro de forma produtiva:
Por exemplo, se a vossa empresa paga-vos um carro no valor de €300 mensais, peguem em €150 do vosso salário limpo e todos os meses escolham amortizar uma dívida antecipadamente, poupar até terem 6 meses de despesas, ou invistam o valor.
Sei que esta recomendação parece extrema - mas lembrem-se, este não é o Substack dos esquemas para enriquecer rápido e gastar milhões, é o Substack dos hábitos saudáveis financeiros.
Um facto bónus: O carro médio usado em Portugal custa tanto como o salário anual médio
Num país em que os salários baixos são claramente um tema para muitos portugueses, é surpreendente ver que o preço médio de um automóvel usado é praticamente igual ao salário anual médio.
Leram bem - automóvel usado. Por isso, é fácil imaginar que - apesar de não existirem dados divulgados sobre o preço médio de um automóvel novo - os portugueses compram carros mais caros do que o salário que recebem em um ano inteiro de trabalho.
Esta é uma receita perfeita para nos endividarmos continuamente, sempre a trocar de carro, e a passar de um empréstimo para o próximo, com pagamentos mensais altos a roubar-nos liberdade todos os meses.


